O Cuidado Devido aos Mortos

Ó venerável Paulino, meu irmão no episcopado, devo há muito tempo a V. Santidade uma resposta. Devo-a desde que me remeteste, por familiares de nossa mui piedosa filha Flora, uma carta em que me interrogava se o fato de alguém ser sepultado junto ao monumento comemorativo (Memória) de santo reveste-se de alguma utilidade para o cristão. Tal questão te fora proposta pela viúva que acabo de nomear, a propósito de seu finado filho, inumado num recanto dessa tua capela.

 

Não é coisa vã o sentimento que leva pessoas religiosas e fiéis a prestarem esse cuidado para com o s seus defuntos. Acrescentas, ainda, que não é sem razão que a Igreja universal tem o costume de rezar pelos mortos. Só se pode, pois, concluir daí que seja útil ao homem, após sua morte, providenciar-lhe pela piedade dos seus, uma sepultura desse gênero, onde possa contar com a proteção dos santos.

 

Caso seja bem fundada a opinião de ser útil o sepultamento dos defuntos queridos junto à Memória dos Santos – que não vês bem como isso se concilia com as palavras do Apóstolo que diz:

 

            “Todos nós teremos de comparecer manifestamente perante o tribunal de Cristo, a fim de que cada um receba a retribuição do que tiver feito durante sua vida no corpo, seja para o bem, seja para o mal” (2Cor 5,10).

 

Com efeito, a sentença do Apóstolo adverte-nos que é antes da morte que devemos fazer o que poderá ser útil depois dela. Não deverá ser na hora em que cada qual há de receber os frutos do que tiver praticado durante a vida.

 

Eis como se resolve a questão: Enquanto se vive neste corpo mortal, existe certa maneira de viver que permite, uma vez morto, adquirir algum alívio com as obras pias feitas em seu sufrágio. Essa ajuda será proporcional ao bem que cada um tiver cumprido durante sua vida.

 

Existem alguns para quem esses socorros permanecem inteiramente inúteis: são aqueles cuja conduta foi tão má que se tornaram indignos de se aproveitarem deles. E também existem alguns cuja vida foi de tal modo irrepreensível que não possuem nenhuma necessidade de tais socorros. Portanto, é o gênero de vida que cada qual levou durante a existência corpórea, que determina a utilidade ou inutilidade desses auxílios que lhe são tributados piedosamente após a morte. Pois o mérito que os torna proveitosos, se foi nulo no decorrer desta vida. Disso não decorre que a Igreja e a piedade dos fiéis despendam em vão os cuidados que a religião inspira a serviço dos defuntos. Mas não deixa de ser verdade que cada um receberá conforme o que tenha praticado de bom ou de mau em sua vida, pois o Senhor retribuiu a cada um conforme suas obras. Portanto para que o cuidado tomado em relação a um ser querido depois de sua morte lhe sirva de alguma coisa, é preciso que esse alguém haja adquirido a faculdade de o tornar útil no tempo decorrido em companhia de seu corpo.

 

Isso, contudo, não é motivo  para se deixar, com desdém, ao abandono os despojos dos mortos, em especial os dos justos e dos fiéis, órgãos e instrumentos do espírito para toda boa obra. Se a roupa do pai, o anel ou objeto semelhante é tanto mais precioso para os filhos quanto mais terna é sua piedade filial, que cuidado não nos merece nosso corpo, que nos está mais intimamente ligado que a roupa, seja ela qual for? Com efeito, o corpo não é apenas ornamento do homem, adjutório exterior, mas é parte de sua natureza humana.

 

O cuidado para com os mortos, segundo o testemunho do anjo, atrai sobre Tobias as benções de Deus (Tb 2,9; 12,12). O próprio nosso Senhor, que ressuscitará ao terceiro dia, divulga a boa ação da santa mulher que lhe unge os membros com precioso perfume, com para sepultá-lo por antecipação (MT 26, 10-13).

 

A igreja tomou a si o encargo de orar por todos os que morreram dentro da comunhão cristã e católica. Ainda que sem conhecer-lhes o nome, ela os inclui numa comemoração geral de todos eles. Desse modo, aqueles que não mais possuem pais, filhos ou outros parentes e amigos, para auxiliá-los nesse mister, são amparados pelo sufrágio dessa piedosa mãe comum.

 

Há no coração humano um sentimento natural que leva a que ninguém odeie sua própria carne (Ef 5,29). Desse modo, se um homem vem a saber que, após sua morte, seu corpo não obterá as honras da sepultura, conforme o costume de cada raça e país, sente-se conturbado, como homem. Receia para seu corpo, antes de sua morte, destino que todavia depois da morte não o pode atingir.

 

Eis o que devemos pensar a respeito dos benefícios prestados aos mortos por quem nós desvelamos cuidados: só lhes serão proveitosas as súplicas oferecidas de modo conveniente por eles, no sacrifício do altar, no de nossas orações e esmolas. E ainda, é preciso dizer que não serão proveitosas a todos a quem pretendemos ajudar, mas somente àqueles que, durante a vida, tornaram-se dignos de tal benefícios. Como, porém, não podemos discernir quais sejam, convém apresentar súplicas por todos os regenerados, para não acontecer omitirmos alguém entre aqueles a quem esses benefícios possam servir.

 

Tudo o que se realizar quanto ao sepultamento digno dos mortos não é para obter a sua salvação, mas para cumprir um dever de humanidade, em conformidade com o sentimento natural que faz com que “ninguém jamais odeie a sua própria carne” (Ef 5,29).

 

E uma vez que aqueles que não crêem na ressurreição da carne prestam tal cuidado, é justo que o façam ainda com maior solicitude os que possuem essa fé. Assim, tal serviço tributado a um corpo sem vida, mas que há de ressuscitar e permanecer por toda a eternidade, venha a constituir testemunho claro dessa mesma fé.

 

“Ninguém espere obter de DEUS, após a própria morte, o que negligenciou durante a vida”.

 

Santo Agostinho, rogai por nós.

 

 

 

Fonte: AGOSTINHO, Santo: O Cuidado Devido aos Mortos. Editora Paulus, São Paulo 2002.