O Livre Arbítrio – parte II (trecho da obra, de mesmo nome, de Santo Agostinho)

Deus sabia que o primeiro homem havia de pecar – o que deve concordar comigo todo aquele que admite a presciência divina em relação aos acontecimentos futuros -, se assim se deu, eu não digo que por isso ele não devesse ter criado o homem, pois o criou bom, e o pecado em nada pode prejudicar a Deus. Além do que, depois de Deus ter manifestado toda a sua bondade criando-o, manifestou sua justiça, punindo o pecado, e ainda sua grande misericórdia, salvando-o.

 

Com efeito, alguns admitem, de bom grado, que nenhuma Providência divina preside as coisas humanas. E assim, abandonando ao destino sua alma e corpo, entregam-se a toda espécie de vícios que os golpeiam e despedaçam. Negando os julgamentos de Deus, e menosprezando os homens, crêem livrar-se dos que os acusam, apelando para a proteção da sorte. Acostumaram-se a representar essa sorte pintando-a como pessoa cega. Assim, pensam ter eles mesmos mais valor do que ela, pela qual se crêem governados. Ou então, confessam partilhar sua cegueira, ao sentir e falar dessa maneira. Poder-se-ia, sem absurdo, conceder a tais pessoas que todas as suas atividades são uma sequência de acasos, visto que caem  em cada uma de suas ações.

 

Há outras pessoas que, saem ousar negar que a Providência de Deus governa a vida humana, preferem crer, entretanto, por erro ímpio, que essa Providência é impotente, injustiça, até mesmo má. Isso ao invés de confessarem os seus próprios pecados com piedade suplicante. Não obstante, se todas essas pessoas se deixassem persuadir, pensando no melhor dos Seres, o mais justo e poderoso, creriam que a bondade, a justiça e o poder de Deus soa bem maiores e mais elevados do que todas as concepções do próprio espírito. Caso se vissem obrigados a considerar-se a si mesmas, entenderiam que deveriam render graças a Deus, mesmo se ele tivesse querido lhes dar uma natureza inferior àquela que possuem.

 

Exclamariam elas, no mais íntimo de sua consciência: “Eu dizia: Senhor, tende piedade de mi; curai minha alma, porque pequei contra vós” (Sl 40,5)

 

 

Fonte:

Coleção Patrística –  Santo Agostinho: O Livre Arbítrio. São Paulo: Editora Paulus 1995.